Umdelírio de carnaval
Artistas: Bruna Amaro, Clarice Cunha, Paloma Mecozzi, Rafaela Foz, Sandra Lapage
Curadoria de Bianca Dias
de 24/01/2026 à 28/02/2026
Rua Araújo, 154 - mezanino - São Paulo
Sonhar não custa nada
E o meu sonho é tão real.
Mergulhei nessa magia
Era tudo o que eu queria.
Para esse carnaval
Deixe a sua mente vagar.
Não custa nada sonhar
Viajar nos braços do infinito
Onde tudo é mais bonito
Nesse mundo de ilusão.
E o meu sonho é tão real.
Mergulhei nessa magia
Era tudo o que eu queria.
Para esse carnaval
Deixe a sua mente vagar.
Não custa nada sonhar
Viajar nos braços do infinito
Onde tudo é mais bonito
Nesse mundo de ilusão.
Samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel
Rio de Janeiro/1992
Rio de Janeiro/1992
Encontrar espaço para o sonho, o transe e o delírio. Afirmar a vida na sua vertente criativa e assombrada. O carnaval é a alegoria popular que, sob o signo da festa, aglutina a fantasia constitutiva que atravessa a existência e nos resgata da banalidade da crença numa normalidade em que os sentidos se dão de antemão. Da fabulação engendrada na celebração dionisíaca podemos entrever o que Freud convoca como “uma outra cena” que pulsa logo abaixo de nossa suposta racionalidade.
Os trabalhos aqui apresentados, aparentemente díspares e formalmente pensados de lugares distintos, conjugam a capacidade de lidar com o artifício e a ilusão com grande capacidade fabulatória. As artistas que fazem parte deste caleidoscópio afirmam seus trabalhos com encantamento prismático e uma espécie de delírio poético forjado no encontro com as ruas ou na observação do insólito no cotidiano. Ao ensaiar modelos de mundos novos, elas nos convidam a revirar o que está pronto e mergulhar na vertigem do delírio como invenção.
O carnaval nos serve de paradigma justamente por abrigar a desordem que vira as convenções ao avesso. Numa espécie de efeito catártico que coloca trégua e alívio às proibições, fantasiados e mascarados revelam que “o eu é sempre outro” e que sempre há “uma outra cena” no campo da imagem, abrigando dimensões ambíguas da constituição psíquica em que o fantástico e o demoníaco forjam uma espécie de fúria implacável do desejo e do assombro.
Na conjunção dos trabalhos de Bruna Amaro, Clarice Cunha, Paloma Mecozzi, Rafaela Foz e Sandra Lapage encontramos uma espécie de zona borrada de inquietante estranheza, que abriga uma dimensão do acontecimento que surge das entranhas do mundo, com obras impregnadas de realidade onírica em mergulho na pura vertigem, flertando com o absurdo e a magia inerente nas coisas. Antes de mais nada, UM DELÍRIO DE CARNAVAL: UNIR O IMPROVÁVEL E CELEBRAR O MISTÉRIO é uma proposta curatorial que aproxima mulheres artistas sob a perspectiva de que cada trabalho vive sua radicalidade sem empuxo a semelhanças imediatas, orbitando e gravitando ao redor de uma ideia disparadora de um encontro, uma celebração da vida como potência fabulatória.
BRUNA AMARO pinta, borda e costura materiais que carregam histórias, usos e afetos: tecido, couro, manta acrílica, tinta acrílica, paetês, miçangas, aviamentos, pedrarias, lantejoulas e canutilhos compõem um caleidoscópio em que brilho, volume e acúmulo são estratégias para tensionar o olhar e deslocar expectativas. A artista cria superfícies que não se entregam facilmente: pedem aproximação, tempo e uma certa perda de controle. São trabalhos que nascem do fazer manual como gesto político e poético: repetir, falhar, refazer, insistir. O tempo do bordado não é o mesmo da eficiência e a artista captura esse tempo espesso, quase ritual, próximo do sonho, do transe e do carnaval de rua. Seus trabalhos comparecem como uma presença barroca que modula os gestos transformando-os em enigmas. Há também um deslocamento radical de narrativas como a cadeia de associações da coroa – símbolo clássico de glória, triunfo e consagração masculina – que agora se move e desliza para uma obra de Heitor dos Prazeres e, depois, para o Homem da Meia-Noite, personagem do carnaval pernambucano, guardião simbólico da passagem, figura que abre caminhos entre noite e dia. Por fim, a coroa encontra Caipora, figura feminina mítica brasileira. Esse encadeamento propõe outra leitura da coroa, não mais como emblema de dominação, mas como elemento em trânsito, atravessado pela cultura popular e pelo mito. O bordado é uma forma de recontar símbolos, deslocando sentidos coloniais e patriarcais. O que irrompe são mapas instáveis e vivos que surgem do contágio com a rua, o carnaval, o sonho, o transe e tudo que não se deixa domesticar.
Aqui encontramos também os estudos para uma casa na árvore e a fonte dos desejos, produzidos por CLARICE CUNHA no contexto de uma residência artística. Os materiais e ideias das obras nasceram da observação das dinâmicas urbanas e da relação com o bairro paulistano da Lapa, um local de comércio popular de materiais que chegam de todo o Brasil. A artista se apropria de uma série de objetos de utilidades domésticas como bacias coloridas, correntes e réplicas de pássaros brasileiros e, de seu mergulho no cotidiano do lugar, também um bairro de operários, surgem a fonte dos desejos e os ninhos pendentes. A natureza artificial e industrializada encontra caminho para a magia e o espanto. Retirando-lhes a forma funcional, a artista subverte o uso corriqueiro de materiais e refunda uma convivência outra com temperatura afetiva e presença tátil e psiquíca, transbordamentos que conjugam fascinação e movimento pulsional.
No ensaio “Sobre a pintura”, Gilles Deleuze revela que o verdadeiro confronto da pintura não se dá entre a artista e a tela em branco, mas com os fantasmas que a assediam “como feras que se precipitam sobre a tela antes mesmo que o pintor tenha segurado seu pincel”. Na oscilação trêmula entre o que se dá como figuração e abstração, a pintura de PALOMA MECOZZI surge como território do sonho. Neste entre-lugar a artista perfaz o caminho da imagem e da paisagem experimentando escalas, gestos e modos de fazer, para assim acessar a matéria onírica e o mistério. Valendo-se também de materialidades como a cerâmica, tudo em seu trabalho mobiliza a não fixidez. Uma floresta, animais que se apresentam como rastros ou vestígios de sonho, as cores, a vegetação, a presença do tempo, a chuva ou qualquer precipitação refundam uma ideia de paisagem, a partir de um repertório próprio que abriga uma profunda relação com o silêncio, o desconhecido, um interesse constante no que é matéria viva: fungo, árvore, planta, pedra, terra, fruta, bicho, ovo. Uma roda cíclica entre morte e vida, ausência e presença, nascimento e deterioração. Testemunhar a vida em sua plenitude e complexidade e reativar o hábito ancestral de sonhar e narrar é parte da empreitada de uma artista que sedimenta suas referências não apenas na história da pintura, mas na literatura, no cinema, na poesia que ativa sempre o extraordinário e o sonho como contraponto à escassez imaginativa de nosso tempo.
RAFAELA FOZ também deixa entrever o contraste entre o que se apresenta como natural e o que opera como artifício. Há uma espécie de quebra de expectativa que reorganiza nossa percepção frente ao campo do olhar. Em seu vídeo, o que vemos primeiramente são duas pedras, sem darmos conta de que apenas uma delas é real. Por um período alargado por slow motion, a pedra verdadeira cai lentamente e antecipamos o choque entre as pedras. Há uma expectativa de algo estrondoso mas, quando finalmente as pedras se chocam, uma delas se revela falsa, feita de papelão. Seu mosaico, mesmo oriundo de pensamentos mais formais, estabelece um diálogo filosófico e poético com o espaço: escorado na parede rumina segredos no trânsito entre dimensões. O material do mosaico é o vidrotil, o mesmo que reveste muitos prédios urbanos. As pastilhas que envelopam edifícios estão agora dentro de uma galeria, deslocando a presença das coisas e as ruínas do mundo, inventando outra cartografia, rasgando sentidos e abrindo brechas à deriva.
Das mãos de SANDRA LAPAGE surgem esculturas feitas com cápsulas recicladas de café, fio de cobre e outros elementos que combinam fantasia, sedução e feitiço. Máscaras – que se tornam criaturas e esculturas vestíveis maleáveis e mutantes – abrigam os gestos indomesticáveis da artista, tratando de questões do excesso e de como inventar a partir do improviso, dos acidentes e do mistério da matéria. A estrutura, a escala e o desdobramento no espaço seguem a trilha do corpo à procura do transe e do sonho, encarnando uma visão cosmogônica do mundo. A presença epifânica de seu manto e as máscaras que invocam as danças macabras, o carnaval e as festas pagãs mobilizam ideias de sonho, do delírio e do indomesticável. E é essa dimensão fragmentária e pulsante do corpo que produz a interminável escansão de uma beleza inextricável. O manto e a presença da ornamentação remetem ao trabalho de Arthur Bispo do Rosário – de cujas mãos brotaram maravilhosas miniaturas, vestimentas e estandartes –, artista que trouxe em seu delírio as marcas da Folia de Reis e fez sua travessia insistindo na singularidade.
O delírio que aqui se esboça é plural e nômade. É preciso desvairar a linguagem e a imagem para que encontremos, do outro lado, a fantasia, o sonho e a fabulação, como gestos estético e político que digam de nossas necessárias utopias.
Bianca Coutinho Dias
Fotografias por Gui Gomes