Sala da vida privada
Artistas: Carol Ambrósio, Poliana Toussaint e Tathyana Santiago
Curadoria de Carla Farias Cruz
de 05/09/2026 à 08/11/2026
Museu da Inconfidência - sala Ataíde - Ouro Preto - MG
O que a casa silencia

Em diálogo com a Sala da Vida Social, esta exposição reúne trabalhos de três artistas contemporâneas cujas obras estabelecem relações críticas e sensíveis com o acervo do Museu da Inconfidência, tomando objetos como dispositivos de construção, inscrição e reprodução de identidades sociais de gênero.
Num recente esforço de atualização de sua narrativa expográfica, o Museu tem lançado luz sobre a trajetória de mulheres, reabilitando a memória e discursos sobre as biografias de Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira (1759-1819), Hipólita Jacinta Teixeira de Melo (1748-1828) e Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão (1767-1853). A primeira, poeta, a segunda, ativista anticolonial, e a terceira uma mulher cuja existência foi em grande medida eclipsada pela construção literária de Marília de Dirceu.  Pouco se sabe sobre a história de Maria Dorotéia para além de sua condição de prometida de um dos inconfidentes. O seu anel de noivado, preservado no acervo, adquire uma dimensão que ultrapassa o valor documental. Como símbolo de uma promessa interrompida, o objeto conecta a personagem à pessoa, restituindo à materialidade aquilo que a narrativa histórica subtraiu. Essa aliança, apresentada na mostra junto a poemas, produções pictóricas e cartas, torna-se ponto de partida para aproximar subjetividades  e produções de mulheres separadas por mais de dois séculos de história. 
No Brasil-colônia a divisão entre as esferas pública e privada foi consolidada de modo a propiciar a naturalização do papel da mulher à domesticidade e a sua idealização como esposa, mãe e dona de casa. A presença feminina foi circunscrita a uma esfera privada, concebida como complementar e subordinada à vida pública, política e intelectual. Essa separação produziu uma ordenação dos papéis sociais, determinando quem poderia ocupar determinados lugares, produzir discursos e deixar marcas reconhecíveis na história.
Partindo dessa perspectiva, a exposição propõe uma leitura crítica da relação entre mulheres, objetos e espaços domésticos. Se o museu é, por excelência, um lugar em que os objetos participam da construção do discurso histórico, ora constituindo suas evidências, ora sendo submetidos às narrativas que lhes conferem sentido, esta mostra desloca essas relações fazendo emergir contra-narrativas. O que um objeto doméstico revela quando deixamos de observá-lo apenas por sua função? Que histórias permanecem inscritas em sua matéria, e quais foram apagadas?
Na Sala da Vida Social foram destacadas do acervo a aliança, uma escarradeira, uma forma de doces e uma amassadeira, que em diálogo com obras contemporâneas instigam o expectador a compreender os objetos não como simples testemunhos de um modo de vida, mas como agentes de uma complexa rede de relações entre funcionalidade-corpo-espaço e identidade.
Num jogo semântico entre as designações das duas salas, a palavra privada remete ao que foi subtraída, obliterada e reprimida. O privado não se opõe simplesmente ao social, mas constitui, também, uma de suas dimensões fundamentais. A vida doméstica é colocada em evidência a partir de seus artefatos e rituais, revelando como os espaços privados foram também lugares de sociabilidade, circulação de ideias e articulação política, sobretudo no contexto das reuniões e redes de convivência entre os conjurados. 
Ao incorporar itens de antiquário em suas obras, Carol Ambrósio subverte a lógica do servir e desloca os objetos domésticos de sua condição utilitária. Agrupados em composições escultóricas, esses artefatos deixam de responder à finalidade para a qual foram concebidos e passam a operar como matéria de uma nova linguagem. O gesto da artista interrompe a cadeia de funções que historicamente vinculou determinados objetos ao trabalho doméstico e, por extensão, ao lugar social atribuído às mulheres. Ao retirar os objetos de seu regime de uso, Ambrósio produz uma espécie de desobediência material: aquilo que foi criado para servir passa a interrogar a própria lógica do serviço.
Por sua vez, Tathyana Santiago tensiona as fronteiras entre corpo e espaço ao dissolver a figura feminina no ambiente doméstico. Mobiliário, objetos, arquitetura e corpo deixam de constituir elementos autônomos e passam a compartilhar uma mesma superfície pictórica na qual as fronteiras formais se tornam deliberadamente instáveis. Por meio de densas camadas de tinta, sobreposições cromáticas e formas que transitam entre a figuração e a abstração, Santiago constrói uma visualidade em que a casa se converte em extensão do corpo. Frequentemente despersonalizadas e fundidas ao ambiente e à vida familiar, suas figuras evocam a complexidade de uma experiência feminina marcada por apagamentos. A pintura torna-se, assim, lugar de sobreposição de memórias, identidades e tensões, revelando a ambivalência da casa como espaço simultaneamente de intimidade, criação, resistência e afirmação da identidade feminina, ao mesmo tempo que lugar de confinamento, invisibilização e reprodução de estruturas sociais que historicamente circunscreveram a mulher à esfera privada.
Partindo de outro universo de gestos e saberes domésticos, Poliana Toussaint evoca a tríade “cama, mesa e banho” com elementos que condensam dimensões fundamentais da vida privada, do cuidado e da construção afetiva cotidiana. Na obra Tempo Suspenso, a intenção de confeccionar uma toalha de mesa desloca o objeto de sua dimensão estritamente utilitária. No trabalho Trama, a intervenção sobre uma colcha de crochê produzida por sua avó para cada neto que nascia reinscreve no presente uma memória familiar transmitida pela matéria. Em Cura, a representação de uma cachoeira invoca a água e o banho como símbolos de passagem e renovação. Se alguns dos seus trabalhos remetem ao interior da casa e aos seus ritos, as paisagens introduzem uma abertura: um movimento para fora, para o espaço externo, para aquilo que escapa às fronteiras da domesticidade. 
Ao mobilizar saberes transmitidos pela mãe e pela avó, Toussaint reconfigura o bordado ao abandonar os pontos tradicionais e trabalhar em grandes dimensões, à mão livre e sem desenhos prévios. A artista preserva a memória de uma técnica, mas recusa a obrigação de reproduzi-la tal como foi herdada. Seus trabalhos afirmam, assim, uma gestualidade que, embora nasça do universo doméstico, já não se deixa domesticar.
Carla Farias Cruz
Curadora

CURADORIA E COORDENAÇÃO
Carla Farias Cruz
PESQUISA CURATORIAL
Viviane Soares Aguiar 
EXPOGRAFIA
Mariana Weigand e André Weigand
GESTÃO DE ACERVOS
Maraysa Oliveira, Laura Valentim, Mariana Souza 
SETOR DE EXPOSIÇÕES
Fred Bastos, Gustavo Bastos
SETOR EDUCATIVO
Andres Testagrossa, Víctor Meireles, Jordana Tavares, Amanda Rosa, Deborah Silva, Maria Eduarda Vieira, João Victor Drummond
NÚCLEO DE ARQUIVO, BIBLIOTECA E PESQUISA
João Vidal, Talita de Mendonça, Helena Vinchon, André Parreiras, Gustavo Fuscaldi, Eurides Tavares
COMUNICAÇÃO
Vinícius  Augusto Teixeira 
ASSESSORIA DE IMPRENSA
Patrícia Dornelas 
DIREÇÃO
Alex Calheiros
AGRADECIMENTOS
Associação de Amigos do Museu da Inconfidência e todos os profissionais do Museu que garantem o seu pleno funcionamento
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Fotografias por André Weigand