SP Arte Rotas 2026​​​​​​​
de 26/08/2026 à 30/08/2026 
ARCA - Vila Leopoldina  - São Paulo
ARQUIPÉLAGO RADICANTE
Raízes ao Vento, Paisagens à Deriva.

A WG Galeria traz à SP-Arte Rotas 2026 um programa focado nas cartografias e noções práticas de deslocamento, colocando em diálogo quatro artistas mulheres brasileiras que exploram paisagens em movimento, por meio de abstrações líricas, oníricas e atmosféricas: Yohannah de Oliveira, Poliana Toussaint, Poli Pieratti e Carol Ambrósio. O percurso curatorial é construído dentro do pensamento arquipelágico de Édouard Glissant, descentralizado e sem hierarquia, onde as obras se conectam a partir dos fluxos, sem deixar de manter suas singularidades, apresentadas em pinturas, colagens, assemblage, cerâmica, esculturas e arte têxtil.
O termo Radicante, emprestado da botânica e formulado pelo crítico de arte francês Nicolas Bourriaud para compreender a arte contemporânea na altermodernidade, nomeia a capacidade de pôr em movimento as próprias raízes, ou de produzir novas raízes quando nos deslocamos, transcodificando imagens, transplantando comportamentos e interpretando de acordo com o contexto por onde transitamos. A metáfora surge da ação rizomática das plantas, cujos caules ou ramos desenvolvem raízes ao longo de sua extensão, espalhando novos pontos de germinação. Isso se transpõe para as artistas da proposta que, embora mantenham algum tipo de vínculo com suas ancestralidades e seus locais de origem, optam por criar suas próprias narrativas à medida que avançam, em expansão, em suas jornadas. 
Yohannah nasceu em Mossoró, cresceu no sertão da Paraíba, nas regiões de Catolé do Rocha e Jericó, e veio morar em São José dos Campos, para depois se estabelecer em São Paulo. Poliana é de Belo Horizonte, quando criança foi criada em Mogi das Cruzes e hoje vive há mais de 10 anos na França, antes em Paris e agora em Annecy, na fronteira com a Suíça. Poli Pieratti nasceu em Brasília e, após residir em São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa, fez morada em Belo Horizonte. Carol Ambrósio, que é de São Paulo, já morou no Canadá e também na China. Todas são artistas-arqueólogas, desbravadoras, que navegam entre signos e referências. Mas para além da trajetória biográfica de cada, o deslocamento territorial transfigura-se também no suporte e gestualidade dos trabalhos. 
O nomadismo das artistas atravessa espaço e tempo, por conta de suas travessias geográficas, materiais, interiores ou imaginárias, em que a topologia dos cruzamentos se manifesta em obras contínuas. As composições não têm um fim estático, apresentam uma via para atravessar a paisagem, são experiências de passagem. Ao perfazer caminhos errantes, elas têm como intenção a expedição em si, e não o ponto de partida, tampouco o ponto de chegada. Na presença de uma fricção matérica, deliberada pela imperfeição e por processos artesanais, o ritmo é desacelerado e o vento, suave como uma brisa. Não há pressa para chegar.

O panorama se abre para uma natureza simbólica e não literal, povoada por elementos como terra, água, fogo e ar, que afastam a centralidade da figura humana. Percebe-se uma unidade cromática marcada pela predominância de tons terrosos, ocres, minerais e naturais, associados ao Cerrado, ao universo vegetal, floral e botânico e às nuances aquáticas. Por meio de ramificações desordenadas, artefatos, tramas orgânicas e desdobramentos suspensos, as artistas constroem formas-trajeto, em percursos fluídos e sem rumo fixo, evocando ecologias, geologias, improvisação e acaso, campos de vibração e sinestesia, além da presença do vazio e do acúmulo, do afeto e da ressignificação.
Yohannah de Oliveira (Mossoró, RN, 1993) desenvolve uma pesquisa concomitante entre pintura e cerâmica a partir da construção de paisagens desvendadas, formadas pelo assombro das memórias, sonhos e experiências de exploração; em que fósseis, ossos e fragmentos surgem como vestígios de seres que habitaram ou poderiam habitar esses territórios. Em suas pinturas a óleo, a artista sobrepõe camadas de tinta que recebem degradês, mescla de cores, arranhamentos, acúmulos, imperfeições e variações de gesto, onde o pincel é perceptível, construindo campos panorâmicos em que céu, água, terra, vento, desertos e montanhas permanecem em estado de ambiguidade. Na cerâmica de alta temperatura, produz formas em argila branca e negra, moldadas através de movimentos repetitivos e manuais, incorporando craquelamentos, porosidades, queimas e aplicações irregulares de esmalte, parecendo calcificadas, com marcas de tempo e transmutação. Há uma lógica de montagem de pistas, em totem ou obras pontuais, semelhante à composição de um quebra-cabeça: diferentes peças e rastros contribuem para que o ecossistema seja compreendido como um todo. Entre lugares áridos, vulcânicos e de grande altitude, seu trabalho investiga o silêncio, o isolamento e o inóspito como espaços de passagem, preservação e transformação.
Poliana Toussaint (Belo Horizonte, MG, 1980) utiliza a prática do enlace, uma linguagem do bordado contemporâneo, para construir, manualmente e sozinha, peças monumentais, de grandes proporções, que podem durar de um a três meses de produção. Sem desenhos preliminares e de forma instintiva, a artista conecta fios variados de reuso, como lã, algodão, poliéster, linho, veludo e fio de ferro, sobre tecidos, como o linho, ou superfícies perfuráveis, como o crochê, para criar imagens que eternizam cenários vividos ou imaginados. Seu savoir-faire emerge da inteligência da mão, da fluidez do gesto livre e do fazer manual, herdado de sua infância em Minas Gerais, mas subverte a rigidez histórica para um espaço de experimentação. Suas obras à distância revelam-se como horizontes, dos biomas brasileiros, franceses ou inventados, enquanto a aproximação evidencia a trama, os riscos e os fios que parecem raízes soltas, em um procedimento próximo à lógica óptica do impressionismo. A artista percebe uma relação entre as estações do ano e sua paleta: cores mais abertas na primavera e verão e tons mais baixos no inverno. Como vive atualmente no hemisfério norte, e enfrenta a primavera e o verão europeus, apresenta para a feira: cachoeiras, o fluxo das águas, céus, flores e o mar noturno que carrega um efeito sinestésico, onde a leitura da superfície muda conforme o movimento do observador.
Poli Pieratti (Brasília, DF, 1987) parte de fotografias próprias, arquivos familiares, viagens e imagens geradas por inteligência artificial como disparadores para a pintura. Seu processo é uma escavação visual e emocional em que camadas se revelam e se ocultam, conduzidas por um gesto que a artista define como “trêmulo e errante”. Entre óleo, acrílica, pastel seco e tintas à base de água, faz da superfície da pintura o próprio território da travessia. Seres, arquiteturas e biomas surgem então como presenças transitórias em mapas espaciais que ressoam no próprio plano da tela. A referência de Gaston Bachelard a aproxima da dimensão simbólica dos elementos naturais, associados também a uma esfera espiritual, transcendental e ocultista. O Cerrado, seu local de origem e pertencimento, permanece como estrutura rizomática, mesmo quando a pintura alcança paisagens marítimas. O linho ou fundo muitas vezes torna-se aparente, e os espaços não preenchidos participam da composição tanto quanto cor e matéria, com uma pintura mais magra e com respiros, deixando a imagem aberta a diferentes entradas do olhar. A relação sensível com o lugar também orienta suas exposições, nas quais a atmosfera de cada espaço inspira a concepção de suas obras. Para a Rotas, apresenta Rochedos, Ondas, Córregos, Ventania e Calmaria, em paisagens meditativas que vibram na superfície.
Carol Ambrósio (São Paulo, SP, 1981) constrói assemblages e colagens a partir da coleta, fragmentação e recombinação de artefatos encontrados no convívio com feiras, viagens e antiquários. Bibelôs, porcelanas, vasos, cerâmicas e figuras femininas, vegetais e animais deixam de cumprir suas funções originais para integrar novas combinações; em um processo intuitivo no qual cada elemento, retirado de seu contexto, recebe novas bifurcações. A artista amplia esse procedimento para pastilhas cerâmicas, sobre as quais recompõe imagens de pássaros, flores e borboletas, contrastando a rigidez da arquitetura urbana com a organicidade das formas simbólicas, assumindo desgastes e imperfeições. Suas assemblages, expostas neste projeto, dão protagonismo a figuras e elementos naturais, que em conjunto tornam-se um só campo metafórico, em uma passagem da contenção à expansão. Na cerâmica, a artista modela manualmente e realiza queimas tradicionais, como Raku e Obvara, assumindo à matéria tonalidades terrosas, marcas do fogo e variações imprevisíveis da superfície. Em suas obras de parede ou esculturas totêmicas, ela desloca sentidos e elabora formas de emancipação, pertencimento, impermanência e transformação.
Como quatro ventos que partem de diferentes pontos e não obedecem a uma única direção, as artistas deste programa se lançam, corajosamente, a travessias entre tempos dessincronizados e percursos não lineares, formando um mesmo arquipélago de paisagens-correntes e fluxos vibracionais. No ímpeto de pintar, colar, tecer, empilhar e moldar com a gestualidade do próprio corpo, dão o primeiro passo em direção ao desconhecido, descobrindo novos lugares e reinventando modos autônomos de coexistência, em um campo expandido de possibilidades, circuitos e conexões. Nesses deslocamentos, livres da necessidade de permanência e de certezas, uma matéria é primordial: o movimento. Como escreve Bachelard, “com o ar, o movimento supera a substância. Não há substância senão quando há movimento.”

Marina Bortoluzzi, curadora
São Paulo, agosto, 2026




Artistas: Carol Ambrósio |  Poli PierattiPoliana Toussaint | Yohannah de Oliveira