Pleno acaso
Artista: Renata Laguardia
Curadoria de Ana Avelar
de 11/06/2026 à 01/08/2026
Rua Araújo, 154 - mezanino - São Paulo
A pintura de Renata Laguardia opera em uma zona instável entre lembrança, sonho e percepção do mundo. Suas imagens, paisagens tomadas por
vegetações densas, pequenos grupos reunidos em festas domésticas, figuras dispersas em ambientes abertos, não solucionam narrativas contadas. Há nelas algo de suspenso, como se estivéssemos diante de cenas vistas através das lentes da memória, que é imprecisa em sua natureza, ou de um estado de consciência intermediário, no qual realidade e projeção psíquica passam a coexistir.

Mais do que representar acontecimentos, Laguardia constrói atmosferas. Suas telas são atravessadas por uma temporalidade ambígua: algo parece já ter acontecido e, simultaneamente, ainda estar por acontecer. Essa sensação deriva não apenas da escolha de temas cotidianos, encontros familiares, convivências íntimas, fragmentos de paisagem, num brincadeira entre espaços internos e externos, mas, sobretudo, da maneira como a artista produz a imagem. A pintura se desenvolve por camadas sucessivas, em um processo que reúne e joga com o controle e o acaso. Sobre as cenas previamente construídas, Laguardia lança a tinta, formando uma velatura translúcida superior com a qual opera manchas, que encobrem parcialmente o que havia sido pintado. A superfície passa então a funcionar como uma espécie de membrana móvel: revela e esconde, dissolve contornos, desorienta a estabilidade da visão.

Esse procedimento, que lembra o staining, desenvolvido por Helen Frankenthaler, faz com que a pintura se aproxime de uma lógica psíquica. Assim como no inconsciente descrito por Freud, diferentes tempos, imagens e afetos coexistem simultaneamente na tela sem obedecer a uma racionalidade linear¹. A imagem nunca aparece inteiramente disponível ao olhar; ela emerge em fragmentos, lapsos, resíduos e zonas de apagamento. Em vez de afirmar a nitidez da representação, Laguardia está interessada justamente naquilo que escapa à consciência organizada da visão. Suas pinturas sugerem que ver 
nunca é um ato transparente: o olhar é constantemente atravessado por desejos, memórias, projeções e fantasias.

Não por acaso, o trabalho da artista estabelece aproximações possíveis com universos pictóricos como os de Marlene Dumas e Mamma Andersson. Em Dumas, encontramos a pintura como um campo de instabilidade emocional e psicológica, no qual a figura humana parece oscilar entre presença e dissolução. Em Andersson, a construção de atmosferas ambíguas transforma espaços domésticos e paisagens em territórios de estranhamento subjetivo.

Laguardia compartilha dessa dimensão psicológica da imagem, mas a desloca para um campo em que paisagem, corpo e memória se tornam inseparáveis. Em suas telas, o ambiente nunca funciona como mero pano de fundo, participando ativamente da constituição afetiva das cenas. Há também ecos de tradições históricas da pintura que atravessam sua produção de modo difuso e não literal. Certas relações cromáticas e a intimidade silenciosa das cenas evocam Pierre Bonnard e a herança dos Nabis, especialmente na maneira como o espaço doméstico se transforma em experiência sensorial e emocional. Ao mesmo tempo, suas paisagens parecem absorver elementos do simbolismo e do surrealismo, não por meio de imagens fantásticas explícitas, mas pela construção de estados mentais e atmosferas oníricas. A natureza surge frequentemente como uma presença excessiva e quase sublime: vegetações frondosas avançam sobre a composição, dissolvendo as fronteiras entre figura e ambiente.

Essa dimensão é intensificada pelo papel do acaso em sua prática. Ao lançar tinta sobre imagens já realizadas e permitir que a matéria escorra, manche e reorganize parcialmente a composição, Laguardia incorpora à pintura um componente de imprevisibilidade. A obra deixa de ser resultado de uma intenção que se quer consciente para tornar-se também um registro de acontecimentos materiais. A tinta age, reage, transforma. Assim, o gesto da artista convive com aquilo que a própria matéria produz autonomamente.

Nesse sentido, suas telas parecem afirmar que a pintura não é apenas um espaço de representação, realizando-se como um campo vivo de negociação entre controle e perda de controle. 

As figuras humanas que habitam essas cenas, grupos reunidos, corpos em repouso, personagens dispersos em ambientes externos, raramente assumem uma centralidade individual. Elas aparecem quase como presenças afetivas compartilhadas, atravessadas por uma condição coletiva e silenciosa.

Não há teatralidade evidente, tampouco psicologização narrativa. O que se constrói é uma espécie de suspensão emocional, em que pequenos gestos cotidianos adquirem densidade enigmática. Mesmo quando reunidos, os personagens parecem envoltos em solidões particulares, como se cada corpo estivesse parcialmente absorvido por sua própria deriva interior. A exposição revela, assim, uma artista profundamente interessada nos limites da percepção e nas zonas opacas da experiência humana. Suas pinturas recusam tanto a objetividade documental quanto a abstração total. Permanecem num território intermediário, onde imagem e matéria, consciência e inconsciente, presença e apagamento coexistem continuamente. Em vez de oferecer certezas visuais, Renata Laguardia produz pinturas que exigem um olhar disposto a atravessar superfícies instáveis, aceitar ambiguidades e reconhecer que toda imagem carrega sempre algo que não pode ser inteiramente revelado.

Ana Avelar

¹ Griselda Pollock argumenta, com apoio no pensamento de Julia Kristeva, que o tempo do
feminino é “monumental-cíclico, ou seja, o tempo dos corpos, gestações, ritmos. Da repetição e da singularidade.

Fotografias por Leonardo Bosnic