O Norte fica ao Sul
Artista: André Weigand, Beto Fame
Curadoria de Luiza Testa
de 08/10/2026 à 07/11/2026
Rua Araújo, 154 - mezanino - São Paulo

Eu só sou louco a Norte-noroeste; 
quando o vento é do Sul distingo um gavião de um falcão.
William Shakespeare, Hamlet, ato II, cena 2

A estranha geografia que Hamlet traça para o próprio discernimento sugere que orientar-se pressupõe reconhecer pontos de referência. Para André Weigand e Beto Fame, a arquitetura é um deles. Os códigos da formação que compartilham são o fio que costura O Norte fica ao Sul, embora, à primeira vista, suas práticas pareçam muito distintas entre si. Ora se aproximando, ora se distanciando, os dois artistas sempre retornam a um mesmo eixo: a busca por orientação.
Na obra de Beto, carioca e imigrante vivendo em Londres, orientar-se significa lidar com a distância concreta entre o Sul e o Norte globais, como fez Gonçalves Dias (como não se lembrar dos versos de Canção do Exílio, “As aves, que aqui gorjeiam / não gorjeiam como lá”?) e tantos outros depois dele. Pássaros, plantas e símbolos culturais aparecem nas obras de Fame como índices de lugares distintos, mas também como organismos que atravessam fronteiras, se dispersam e reaparecem em outros territórios, marcando um movimento de deslocamento que dialoga com a trajetória do próprio artista.
O fato de estar no hemisfério Norte é o que justamente permite que Beto reconheça com muita clareza aquilo que vem do Sul, o sotaque que ecoa, as espécies que se distinguem e as paisagens que permanecem, apesar do tempo. Como uma bússola, é a distância que aponta para o lugar de onde se vem.
Na obra de Weigand, a orientação assume outro sentido. Sua pesquisa parte de um fundamento da arquitetura que vem sendo progressivamente abandonado: o reconhecimento do Norte como uma referência fundamental para a incidência da luz, a prática cedeu espaço ao imperativo do aproveitamento máximo dos terrenos. A sensação de desnorteamento é, ao mesmo tempo, literal e poética, manifestada na ligação (ou na ausência dela) entre a arquitetura e o sol, e na nossa crescente alienação em relação à natureza, sobretudo em meio às mudanças climáticas que borraram qualquer senso de previsibilidade quanto aos ciclos naturais em 2026. 
Outra questão central em suas obras é a escala. Em Do rigor na ciência, Jorge Luis Borges imagina uma cartografia levada a tal grau de precisão que o mapa passa a ter as mesmas dimensões do próprio Império, coincidindo ponto a ponto com seu território e deixando de funcionar como representação e fonte de orientação. Nas obras de Weigand, a alteração de escala produz um movimento inverso: elementos da arquitetura (mesas e cadeiras; casas e bairros) e da paisagem são deslocados de suas dimensões habituais e passam a ocupar o espaço expositivo como objetos autônomos.
Entre a natureza representada por Beto e aquela reorganizada por André, encontramos outra aproximação, agora no nível técnico: a colagem. Enquanto Weigand sobrepõe materiais como azulejo e latão, Fame parte de cenas fotografadas ou imaginadas, transpostas em acrílica para a tela, onde diferentes planos se justapõem. Essa construção por camadas, que se inspira na obra da também fluminense Lucia Laguna, produz uma experiência material: superfícies lisas, ásperas, brilhantes ou opacas revelam vestígios dos diferentes mundos aos quais pertencem. 
As junções entre camadas ganham importância ao aproximarmos os dois artistas, pois deixam evidente a preocupação de ambos com as zonas limítrofes, que podem se apresentar tanto no rejunte dos materiais de construção quanto nas fronteiras entre países, rios, cadeias montanhosas ou linhas imaginárias, definidas pelas regras do jogo geopolítico. A transição de uma camada para a outra norteia a composição de Fame, cujo repertório de elementos alegóricos se organiza a serviço da sobreposição, como nos cobogós de Visitantes, que intermediam os conjuntos pictóricos, ou nos padrões de grades típicas do rico acervo arquitetônico brasileiro, que vemos em Interior e Joga carambola. 
Na obra de Weigand, o atrito entre o suporte e a camada escultural tende a desaparecer na transição suave entre os materiais brutos (como nos espelhos que preenchem os vãos de Ampliação de 5 1:2). Assim, as hierarquias se confundem. É o latão quem sustenta o espelho e o azulejo ou vice-versa? Essa fluidez atinge seu ápice na relação entre obra e parede com Norte-Norte, que se funde à arquitetura. 
A fricção, portanto, fica concentrada no campo simbólico. Mesmo quando o urbanismo trata de afastar ou conter o mundo natural, este invariavelmente retoma seu território: rios vazantes, pássaros que insistem em cantar sob o ronco das máquinas, vegetações cujas raízes rompem o vaso que as contém. Em Beto, essas fronteiras aparecem ainda sob o olhar de quem observa o Brasil à distância; em Weigand, dizem respeito ao dia a dia, água, arquitetura, luz e vida humana se afetando mútua e constantemente. 
Cabe questionar, então, se essa separação realmente existe ou se não passa de uma ficção. Nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Karl Marx define a natureza como o “corpo inorgânico” do ser humano: aquilo que está fora de nosso corpo e, ainda assim, do qual dependemos para viver. Humanos e natureza não formam, portanto, entidades independentes de forma que apartar-se da natureza significaria apartar-se também de uma parte de si.
Se não existimos separados daquilo que nos cerca, tampouco podemos nos orientar de maneira isolada desse corpo inorgânico, da natureza, do nosso entorno e dos referenciais a partir dos quais construímos nossa relação com o mundo. Há algo de literal na proposição de que O Norte fica ao Sul: a região que chamamos de Norte geográfico comporta-se, em termos de polaridade, como um sul magnético e, por isso, atrai a extremidade norte da agulha de uma bússola. Para determinar uma orientação, não dependemos apenas de onde estamos, mas também de onde viemos. Cada tentativa de se localizar pressupõe, portanto, o estabelecimento de uma relação com aquilo que está ao redor e dentro de nós.
Luiza Testa    


1 SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 2019.
2 DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. In: DIAS, Gonçalves. Poesias completas. São Paulo: Saraiva, 1957.
3 BORGES, Jorge Luis. Do rigor da ciência. In: BORGES, Jorge Luis. O fazedor. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
4 Lucia Laguna (1941-2026) foi uma referência importante e constante para Beto Fame. Nas palavras do artista: “Quando penso em arte brasileira, é impossível não pensar em Lucia. Quando penso em colagem, é impossível não pensar em Lucia. Quando penso em pintura, é impossível não pensar em Lucia.” Laguna faleceu durante o período de montagem desta exposição, que Beto Fame dedica à sua memória, em reconhecimento à influência e à admiração que marcaram a relação do artista com sua obra.

Fotografias por Felipe Ghirello