O mundo entreaberto
Artista: Antonio Kuschnir
Curadoria de Priscyla Gomes
Assistente de curadoria Gabriella Nunes
de 10/04/2026 à 23/05/2026
Rua Araújo, 154 - mezanino - São Paulo
Como uma porta que nunca se fecha por completo, como uma luz que atravessa sem tudo revelar, há mundos que não se constituem como totalidade. O mundo entreaberto propõe um modo de ver em que a imagem se apresenta como processo, em que o que é revelado permanece paradoxalmente oculto. A ideia contida não necessariamente remete-se a algo inacabado, mas que tem como cerne o dinamismo, o processo em constante transformação. As formas surgem, se reorganizam e permanecem em movimento, como se cada imagem carregasse consigo algo de mistério e segredo.
A pintura de Antonio Kuschnir se apresenta como um campo de fabulação. Não se trata, contudo, de narrativas organizadas segundo uma lógica linear, mas de um regime de imagens em que figuras, objetos e paisagens emergem como fragmentos de histórias possíveis. Um compêndio que abarca desde fragmentos de experiências, ecos de memórias, referências paradigmáticas da História da Arte, e projeções de desejos. Cada tela não conta uma história, ela a suspende. Ou melhor, a dispersa em múltiplas direções, como se o sentido estivesse sempre em processo de formação.
Essa dimensão fabular não é apenas temática, mas estrutural. A pintura opera como um dispositivo de abertura, no qual ver implica atravessar. Trata-se de um espaço que não exige compreensão imediata, mas que convida o espectador a se deslocar por signos e símbolos, aceitando a instabilidade como condição de experiência. Nesse sentido, a imagem não se oferece como evidência, mas como enigma.
O universo pictórico de Kuschnir é povoado por figuras que parecem habitar um tempo suspenso. Corpos que escapam à proporção dividem o espaço com objetos cotidianos, tecidos fluidos e elementos naturais que não obedecem a uma lógica de escala ou de pertencimento. Há, nessas composições, uma espécie de simultaneidade latente: tempos distintos, referências heterogêneas e regimes de imagem diversos coexistem e se fundem. O resultado é um espaço instável, onde o passado não é memória, mas matéria ativa, e o presente não é instante, mas campo de forças.
Em Antonio Kuschnir, a pintura parece emergir não como ilustração de uma ideia anterior, mas como superfície de aparição daquilo que ainda não tinha forma. Talvez por isso sua obra nos alcance por uma via ao mesmo tempo íntima e indeterminada. Há cenas, fragmentos de narrativas possíveis e uma impressão de proximidade. Mas nada se revela por inteiro. Cada imagem guarda um resto de enigma, uma reserva, uma sombra. 
Cabe ressaltar que, para além de sua dimensão compositiva, aquilo que se apresenta na obra de Kuschnir insinua muito sobre o processo. Um processo resiliente e dedicado no ateliê, de um leitor e observador atento, que também revela a convicção do artista de que é na fatura pictórica que reside um dos mais substanciais pensamentos. Essa relação encontra em Henri Matisse uma vizinhança decisiva. Em Notas de um pintor (1908), Matisse enuncia que o pensamento do artista não deve ser considerado fora de seus meios; e mais do que isso, afirma não poder distinguir entre o sentimento que tem da vida e a forma pela qual o traduz. Essa formulação parece ecoar com força no trabalho de Kuschnir. Também aqui a pintura não vem depois da experiência: ela é o próprio campo onde a experiência se organiza, se perde e reaparece.
Não fortuitamente, suas telas têm algo de processual, de vivo, de ainda em curso. Elas parecem, antes, atravessadas por uma marcha interna, por uma pulsação que sustenta suas relações. Figuras retornam sob novas aparências, objetos reaparecem como se carregassem lembranças, paisagens se oferecem menos como lugares do que como estados de sensibilidade. O motivo, em Kuschnir, não é um tema fixo: é aquilo que insiste. Aquilo que volta não por repetição, mas por necessidade interior.
Há, nesse movimento, uma dimensão fabular. Não no sentido de uma narrativa exemplar, mas como invenção de um espaço onde diferentes ordens de realidade convivem. O cotidiano e o onírico, o íntimo e o teatral, o corpo e o ornamento, o desejo e a memória se tocam sem se fundir completamente. As pinturas de Kuschnir parecem habitar essa zona rara, entreaberta, em que as coisas deixam de obedecer inteiramente à lógica do mundo e passam a responder a uma lógica da imaginação. Não se trata de escapar do real, mas de abri-lo. 
A cor é uma das grandes responsáveis por essa abertura. Ela não serve apenas para preencher a forma ou estabilizar a composição. Ao contrário, muitas vezes é a cor que desarranja o espaço, que dissolve as certezas do olhar, que faz a imagem vibrar numa frequência menos descritiva do que afetiva. Em Kuschnir, a cor envolve, suspende, por vezes, perturba. Há momentos em que ela parece vir de um lugar anterior à nomeação, como se carregasse em si um saber obscuro da pintura.
Talvez seja aí que sua relação com Matisse se torne mais sutil e mais profunda. Não apenas no gosto pela intensidade cromática, ou na liberdade diante da forma, mas na compreensão de que a pintura pode ser uma morada sensível para aquilo que, na vida, permanece excessivo, disperso ou intraduzível. Em Matisse, essa aposta se ligava ao desejo de uma arte de equilíbrio, pureza e tranquilidade. Em Kuschnir, ela reaparece de outro modo: menos como serenidade, mais como suspensão delicada. Como se a tela pudesse acolher tensões sem resolvê-las, oferecendo-lhes uma forma provisória, densa, respirável.
Também por isso há algo de teatral em suas composições. Cortinas, enquadramentos, poses, aparições: tudo sugere a iminência de uma cena, e no entanto a ação nunca se conclui. O que vemos é o instante espesso em que a imagem ainda hesita entre se mostrar e se retrair. A pintura torna-se então um espaço de latência, onde cada figura parece guardar uma vida anterior e outra ainda por vir.
Há algo de luxuoso na abundância imagética, na densidade ornamental, na generosidade da superfície; mas que nunca se exacerba. Como se a suspensão do tempo narrativo e a recusa do excesso retórico fossem chaves para alusão à calma e para uma cadência interna da composição. Talvez resida aí uma de suas maiores forças: a de devolver à pintura um tempo próprio, um tempo espesso, de maturação.
Por fim, a pintura de Antonio Kuschnir parece nos lembrar de algo essencial: que ver também pode ser uma forma de elucubrar, criar e sonhar acordado. Que a imagem pode ainda ser lugar de abrigo e de estranhamento, de delicadeza e de desvio. E que, entre o mundo vivido e o mundo representado, há um intervalo fértil: um intervalo onde a matéria ganha espessura afetiva, onde a forma hesita, onde o pensamento se torna visível sem perder seu mistério.

Priscyla Gomes
março de 2026

Fotografias por Leonardo Bosnic