Alquimia contemporânea
Artistas: Alex Rocca, Luiz Eduardo Rayol
Curadoria de Rejane Cintrão
de 07/03/2026 à 28/03/2026
Rua Araújo, 154 - mezanino - São Paulo
O que os alquimistas pensariam sobre a Inteligência Artificial (IA)? Em sua busca por transformar metais em ouro e descobrir o elixir da vida, provavelmente veriam a IA com ceticismo. Para eles, a transformação e a criação eram processos profundamente humanos, ligados a experiências, conhecimentos ancestrais e à espiritualidade. A ideia de máquinas simulando inteligência humana poderia parecer uma simplificação da complexidade da condição humana e a subestimação do valor do trabalho manual e das tradições.
Pessoalmente, acho que a IA ainda tem um longo caminho a percorrer. Me baseio na produção artística contemporânea para chegar a esta conclusão.
Se tomarmos as produções artísticas apresentadas na última Bienal de São Paulo, nas duas últimas Bienais de Veneza e na última Documenta de Kassel, todas realizadas pós-pandemia, o caminho da humanidade seria o oposto: o retorno ao trabalho comunitário, o fazer manual, o retorno à natureza, a busca pelo conhecimento de nossos ancestrais, a valorização do ser humano. Uma boa pergunta a se fazer é: onde foi parar o Second Life que tanto prometia no início deste século? E as NFTs (non-fungible token) nas quais as feiras de arte apostaram alto de 2018 a 2022? Algo a se pensar.  
A arte reflete o espírito da época em que vivemos e, muitas vezes, preconiza o futuro. Me parece que o caminho que nos está sendo mostrado pela arte vai na contramão da IA.
Acredito que os trabalhos dos dois artistas aqui apresentados provam minha tese. Alex nasceu em São Paulo, e mora em Curitiba desde criança. Luiz, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha. O que une as obras destes dois artistas que moram em cidades tão diferentes são suas histórias de vida, suas experiências prévias com design, e o fato de que pedras, sim, estes materiais sólidos naturais, formados por “minerais ou vidro vulcânico, que constituem grande parte da crosta terrestre”, são o ponto de partida para os trabalhos aqui apresentados. Utilizadas há milênios para proteção, cura e equilíbrio energéticos, agem como vibrações entre o mundo físico e espiritual e fazem parte da composição do vidro, utilizado por Alex e da história artística de Luiz. 
Alex foi buscar em suas origens africanas, em especial na cultura Banto, a espiritualidade e as formas, tramas, cores e técnicas utilizadas em seus trabalhos. Chapas de vidro transparente recortadas e fundidas pelo próprio artista com pigmentos de cor são costuradas com fios de cobre e tramas feitas a partir de contas de vidro, cerâmica e madeira formando campos de cor amalgamados com pedaços de seda, algodão, bambu e tapeçarias. Todos, materiais milenares. A história de seu trabalho, baseada em seus ancestrais, está contada no texto escrito por ele e que acompanha esta apresentação.
Luiz, que nos conta a história do seu trabalho no tocante texto “Serenata” que também acompanha esta apresentação, iniciou uma coleção de pedras depois que perdeu sua mãe na adolescência, e elas se tornaram seus personagens em suas grandes instalações feitas com materiais também milenares, papel e a madeira. Ficou fascinado quando visitou uma exposição de pedras luminescentes, objetos de inspiração para a série aqui apresentada. Partiu dessas imagens que ficaram no seu subconsciente, projetou no computador, mandou cortar as madeiras conforme projetado, e depois  as sobrepôs e as lixou manualmente, cobrindo-as com camadas de tinta aplicadas por meio de gestos repetidos que nos fazem imaginar seu corpo em embate com o pincel e o suporte. É uma pintura em movimento. A gente sente o movimento de cada pincelada. E, aqui, me permito dizer que ele é um artista carioca, como Lygia Clark, Oiticica, Ernesto Neto. Para todos, o corpo é fundamental no fazer artístico. Luiz é um pensador mas, como ele mesmo diz, deve confiar mais em suas mãos do que em sua cabeça quando se trata de sua produção artística. Decisão sábia. Anselm Kiefer, um de meus artistas favoritos, ao lado de Cildo Meireles, e um dos mais celebrados do nosso tempo, também é um artista manual, e utiliza materiais não convencionais na fatura de seus trabalhos, como chumbo, concreto, vidro, palha, sementes cinzas e madeira, que trazem textura e simbolismo às suas obras. O chumbo, em particular, está associado à alquimia e ao processo de transmutação.
Alex e Luiz vieram da experiência do design, Alex pela tapeçaria, Luiz pela marcenaria mas são, sobretudo, artistas e estão, como Kiefer e outro artista brasileiro que muito admiro, Tunga, intimamente ligados à alquimia.
Os alquimistas estão chegando, diria Jorge Ben. E eles são artistas.


Rejane Cintrão, carnaval de 2026
Fotografias por Leonardo Bosnic